sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Livro "A vida e o veneno de Wilson Simonal" - resenha

Nem acreditei quando pesquisei no blog e me dei conta de que nunca antes postei nada sobre Wilson Simonal!

Pois agora, depois de terminar de ler a biografia "Nem Vem Que Não Tem: A Vida e o Veneno de Wilson Simonal", não tem nem como não postar nada sobre essa figura tão controversa da música brasileira.

Como tantas coisas na minha vida, Simonal esteve "presente" desde que me entendo por gente. Minha mãe cantava muitas de suas músicas pra nós em casa e nossa preferida sempre foi "Lobo Bobo", a princípio por fazer referência à história da Chapeuzinho e, com o tempo, por eu passar a achar a letra muito engraçada (e sim, eu sei que ela é originalmente do João Gilberto, mas sempre ouvi e tive como favorita a do Simonal). Além disso, lá por meados de 2005 meus pais foram a um show de Simoninha, filho de Simonal, e  assisti a uma apresentação dele na falecida MTV. Até então, meu interesse não ia muito além disso...

Até que em 2011 peguei sem querer passando na TV um trecho do filme "Ninguém sabe o duro que dei", documentário de 2008 sobre Simonal, e me interessei bastante. Procurei e consegui assistí-lo na íntegra. Foi então que me apaixonei pelas músicas do "Rei do Beco das Garrafas". Posso dizer com toda a certeza que "Sá Marina" foi a música que mais ouvi ao longo de 2012, além de tantas outras maravilhas.



Na virada de 2013 para 2014, fomos à Avenida Paulista (superando o medo enorme que tenho de multidões) só pra ver o show do "Baile do Simonal", composto por seus filhos Simoninha e Max de Castro. E em 2014, no Festival de Inverno de Paranapiacaba, além de ver mais uma vez o Simoninha se apresentar, tive a chance de tirar uma foto com ele e falar (de forma extremamente tímida) que admiro muito o pai dele. Foi um momento muito legal.


Além disso, ano passado quis muito assistir ao musical "S'imbora, o musical" cantando a vida dele, mas infelizmente, por motivos maiores, não consegui ir.

Até que, perto do fim de 2015, enquanto fuçava na seção de biografias de um sebo, dei de cara com o livro "Ninguém sabe o duro que dei: a vida e o veneno de Wilson Simonal" e é claro que comprei. Fiquei muito feliz em encontrá-lo pois já tinha lido várias resenhas sobre ele, mas até então só tinha tido contato com sua versão em PDF, a qual não me animava muito a lê-la.
E foi assim, depois de ler a biografia do ABBA, que engatei logo na seqüência com a de Mr. Wilson Simonal de Castro, para aproveitar ao máximo meu período de férias acadêmicas.

A "trama" foi muito diferente do que eu esperava. Talvez por justamente ter emendado a leitura de biografias de artistas tão diferentes, com culturas e histórias tão discrepantes entre si, eu tenha sentido um choque de realidades tão adversas.

Fato é que a história do "Simona" começa como a de tantos outros artistas brasileiros, com muita dificuldade e problemas, tudo o que poderia tê-lo levado a caminhos muito  diversos aos da música. É impressionante ver seu crescimento como artista e cantor ao longo dos anos, assim como todo seu trabalho rendendo frutos maravilhosos no cenário musical da época. Além disso, achei muito interessante ver o quanto Simonal esteve presente em momentos importantíssimos de nossa história de festivais e programas de auditório, muitos detalhes de peso que até então me eram totalmente desconhecidos.

Tenho de admitir que, principalmente nos capítulos sobre seu auge artístico, fiquei com uma sensação estranha da pessoa de Simonal e quase parei a leitura por aí. A forma como ele demonstrava se portar, em especial no seu apogeu, me fez ter certa antipatia, cheguei até a questionar se realmente eu conseguiria continuar ouvindo suas músicas sem ter essa sensação chata que teimava em surgir à cada linha lida. Talvez fosse porque seu comportamento se chocasse com o que eu considero "ideal" (e isso é algo muito pessoal meu) ou porque simplesmente sua personalidade fosse o extremo oposto da minha, o negócio é que me esforcei ao máximo para não julgá-lo sob minha ótica pessoal, afinal não sou parâmetro pra ninguém. Foi assim que segui a leitura, procurando sempre manter o foco na figura artística, deixando a pessoa em segundo plano.

E, com o desenrolar dos fatos, a sensação de antipatia foi se transformando em empatia, compaixão e, por fim, tristeza. Cheguei até a ficar com remorso de ter julgado tanto essa figura e sua forma de agir em uma fase de sua vida que acabou se tornando tão breve e distante.

Senti primeiramente empatia por todas as atribulações familiares que se sucederam, tanto com sua esposa como com sua relação com os filhos e pessoas mais próximas.

Depois, compaixão por descobrir tantos fatos tristes e coincidências infelizes que lhe causaram tantos momentos amargos e deixaram muitas situações constrangedoramente tristes.

E tristeza, muita tristeza, por ver alguém com tanto talento ser deixado de lado da forma como foi, ser "sepultado em vida" por atitudes equivocadas e situações das quais pouca chance teve de se defender, além de ter sido tão pouco ouvido por todos os que poderiam ter feito alguma coisa para ajudar a mudar essa situação. Foram muitos os momentos em que tive de segurar o choro, porque o livro relata cenas muito tristes dele tentando se reerguer da forma como podia e sempre caindo em mais e mais desilusões e decepções.

Lendo o livro pude finalmente entender de forma mais organizada todo o imbróglio envolvendo Simonal, seu contador, os militares, a ditadura e toda a imprensa. Como alguém que nasceu em 1990, minha visão do cenário histórico brasileiro sempre foi meio tendenciosa, visualizando apenas lados extremamente polarizados e, como tanta gente por aí, acreditando piamente que existia apenas uma verdade. Mas foi muito bom para mim ter a chance de conhecer, através de Simonal, um panorama diferente e muito mais realista, onde todos sem distinção tiveram uma parcela de culpa nos acontecimentos. Sei que Simonal não foi santo no caso ocorrido, mas me dói muito também ver o quanto ele acabou se tornando símbolo de  algo do qual ninguém mais quis se aproximar, algo muito pesado, e como esse fardo não precisava ter sido jogado de forma tão insensível (quase que) unicamente sobre ele.

Até à título de curiosidade, resolvi assistir mais uma vez ao "Ninguém sabe o duro que dei" para poder ver fotos e imagens em ordem cronológica do "Simona". Foi algo muito proveitoso, principalmente porque assim pude entender o porquê do depoimento de algumas figuras específicas no desenrolar dos fatos e sua forma de "fazer graça" com o que aconteceu. Acredito até que o filme fez muito mais sentido para mim agora, depois da leitura da biografia do que quando o vi pela primeira vez.

Enfim, essa obra me surpreendeu e marcou muito; fazia tempo que um livro não me despertava tantos sentimentos complexos e aparentemente desconexos. Mas em se tratando do biografado, acredito que não poderia ter sido diferente. Além disso, não posso esquecer de citar a ótima narrativa de Ricardo Alexandre, que conseguiu retratar os fatos de forma cativante e com uma visão bem ampla, que me fez querer pesquisar mais e mais sobre tantos outros temas musicais citados na obra.

Querendo ou não, acabei comparando mentalmente em muitos momentos a biografia do ABBA com a de Simonal, pois me impressionou bastante a óbvia discrepância de realidades de países tão diferentes como Suécia e Brasil no mesmo período de tempo (principalmente anos 70) e as personalidades tão recatadas e discretas dos músicos suecos em contraste extremo e (para mim) chocante com a extravagância e exibicionismo de Simona. Mas o mais interessante no meu ponto de vista foi ver que, apesar de todas as diferenças, ABBA e Simonal sofreram do mesmo mal: terem seu auge musical em uma época mundialmente tensa e serem muito julgados pela imprensa por aparentemente não terem posições políticas definidas e muito menos usarem sua música como forma de "protesto". Durante todo o livro do ABBA ficou bem exposto que eles, apesar de muito famosos e queridos pelo público, eram constantemente criticados e diminuídos pelos meios de comunicação que os considerava "vendidos". Soa bastante familiar, não?

Mas muito além de todo esse texto enorme que nem sei como consegui escrever (pois ainda estou me recompondo das emoções do livro, hehe), o que tem de se sobressair sempre é a obra maravilhosa de Simonal.
Simona merece todo o respeito e admiração possíveis. Nunca será esquecido.



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